GOD SAVE THE BEER.

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A minha primeira vez não foi legal

Este é, talvez, meu post mais sincero neste blog, onde busquei transcrever com fidelidade algumas experiências vividas, sem ter medo da censura e tampouco de se aventurar e de se lançar em novas experiências,  compartilhando-as com os amigos da rede.

A sabedoria e a experiência nos fazem perceber que, por vezes, no início as coisas parecem não ser exatamente como a gente espera, e devo admitir, a minha primeira vez não foi legal. A segunda, mais ou menos. Mas como sou brasileiro e não desisto nunca, continuei, e percebi que a partir da terceira a gente vai se acostumando, gostando cada vez mais. Isto me levou a pensar: será que isso só aconteceu comigo?

Antes que a malícia tome conta das mentes poluídas, é preciso esclarecer. Estou me referindo a experiência de beber um estilo de cerveja que não é para os fracos: as Sour Ale.

Nem lembro direito com qual foi minha primeira vez. Só lembro que não gostei. Sei lá se já estava bêbado, mas não rolou aquela química. Achei tão ruim que cheguei a arrepiar. O aroma e o gosto reavivaram na memória lembranças do século passado, dos tempos de office-boy, quando os funcionários da firma em que eu trabalhava ganhavam no final do ano aquela cesta de natal e, entre tantas iguarias, lá estava ela: a garrafa de cidra feita de maçã. Lembro-me bem que na hora bebê-la parecia que a acidez deste espumante repuxava as glândulas salivares e a altíssima carbonatação fazia com que facilmente um gole acima da média fizesse o líquido transbordar a boca, inundando o nariz e causando uma queimação na narina e um princípio de afogamento. Parecido com isto foi a sensação que senti quando provei uma Beer Sour pela primeira vez. Cheguei a afirmar que aquilo não era cerveja, ou pior, parecia uma cerveja estragada. De fato, se fosse outro estilo, as características que são esperadas numa Sour caracterizariam um defeito na cerveja.

Mas, como dito acima, nada como a gente ir experimentando, conhecendo o estilo, interpretando suas características. As cervejas Sour são selvagens e precisam ser domadas e compreendidas. Por isso, não é recomendada para principiantes. De cara ela pode parecer azeda como certas curitibanas de topete, que empinam o nariz e não conversam com estranhos. Todavia, aos poucos, com jeitinho, entendendo-a, tendo paciência, você começa a gostar e se sentir atraído por elas. Quando percebe, já está levando uma delas para a sua casa. E aí, tchau e benção! Ou, como diria a minha vozinha: foi-se o boi com a corda!

Pois bem, sou desses que começou a levar a Sour para a casa. E desta vez, a minha experiência foi com duas, a Tupiniquim Tirana Sour Ale e a Morada CDB (Cú de Burro). Como as duas merecem um post cada, neste texto falarei sobre minha experiência com a Tirana, que mereceu minha atenção, a começar pelo sugestivo nome.

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A Tirana Sour Ale é fabricada pela Cervejaria Tupiniquim de Porto Alebre/RS (www.cervejatupiniquim.com.br), campeã do festival nacional da cerveja em Blumenau/SC em 2015, referência em boas cervejas pela ousadia e qualidade de seus rótulos. Além da Tirana, uma cerveja de cor amarelo palha, ácida, beirando o azedo, a cervejaria fabrica outros rótulos do estilo, que em breve pretendo conhecer.

No paladar, achei a Tirana Sour Ale rústica, agressiva, intensa. A alta carbonatação fez explodir sensações na boca, ativando as glândulas salivares, tornando possível perceber o resultado dos lactobacilos adicionados à cerveja como aliados da levedura brettanomyces. A acidez intencionalmente provocada por esta bactéria torna perceptível o ácido láctico. O aroma é refrescante, assim como toda cerveja, e a experiência de degustá-la é singular para os apreciadores do estilo.

As Sour Beer também foram criadas pelos belgas, que produziam estas cervejas com leveduras selvagens, que fermentavam o mosto de maneira espontânea, pois os fermentadores (tanques na época) ficavam abertos. Atualmente, os exemplares deste estilo adquirem suas características de maneira intencional e controlada por meio da adição de ácido lático ou bactérias, como a Lactobacillus, a Pediococcus e a Brettanomyces, durante a fermentação.

Nos Estados Unidos as sour beer estão se tornando muito populares e apreciadas pelos cervejeiros, tornando-se o que se convencionou chamar de “nova IPA”. No Brasil, foram feitos vários lançamentos de rótulos do estilo em 2015, com destaque para as produções das cervejarias Tupiniquim, Morada Cia Etílica e Way Beer, entre outras.

Assim como vários outros estilos, a Sour não é um tipo de cerveja para o consumo em grandes quantidades. Para mim, é muito prazeroso apreciá-la intercalando entre IPAs, APAs ou outros tipos encorpados. A acidez atenua a sensação de estar estufado, além de ser refrescante e aromática.

A primeira vez que tomei uma IPA achei muito amarga. Na primeira vez que bebi a Sour achei muito azeda. Hoje gosto de ambos os estilos, apesar de preferir o primeiro. De fato, valeu a experiência e certa insistência que me levou a comprovar que nem sempre a primeira impressão é a que fica.

Cheers!

 

GSTB-WilsonGalvao100x100Wilson Galvão

Professor de geografia e pai da Sophie e da Lúcia. Viaja muito, mas quando não está explorando as paisagens brasileiras se aventura pela alquimia de misturar água, malte, levedura e lúpulo, fazendo cerveja em casa. Vez ou outra gosta de incomodar os vizinhos, batucando sua batera ou fazendo um churrasco. Sonha com uma sociedade mais justa e com um mundo menos mesquinho, onde cada pessoa, sem censura, possa escolher entre um chá ou um pint de uma IPA bem lupulada. No Facebook.

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One comment on “A minha primeira vez não foi legal

  1. Salve Lorde Galvão!
    Outra matéria que nos faz ficar curiosos para degustar este estilo de beer. Só faltou mais “histórias” da sua gênese, tal como fez na anterior.
    Abraços e parabéns.

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