GOD SAVE THE BEER.

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Cerveja sem frescura!

Foi meio sem querer, mas em meus três primeiros posts fiz um passeio pelos ingredientes mais tradicionais1 de uma cerveja: malte, lúpulo e levedura . Em cada receita, esses elementos são trabalhados de maneira distinta, garantindo os variados estilos das beras. É claro que estou excluindo a água, ingrediente primordial, mas que pouco influi na definição dos estilos (afinal, não vemos por aí cervejas com tipos específicos de água estampadas nos rótulos…) Bom, neste quarto post, eu zero a contagem e retorno ao malte, personagem principal das rauchbiers, as cervejas defumadas.

Smoked Barley

Malte defumado (fonte: tablematters.com)

A rauchbier é um daqueles estilos peculiares de cerveja, um tanto impopular (no Brasil) e não tão fácil de se encontrar por aí a não ser em prateleiras de lojas especializadas como a God Save the Beer. Por outro lado, é um estilo muito tradicional da escola alemã, proveniente da cidade de Bamberg, na Bavaria. Como o próprio nome sugere, a cerveja possui notas defumadas em seu aroma e sabor. E não se engane, quando eu digo “notas defumadas”, estou me referindo a bacon, salame, charuto, fumaça mesmo!

É claro que, para se chegar a esse resultado, o trabalho todo é sobre a defumação do malte. Há de se apontar que é um processo diferente da torra do cereal; este último é o que dá origem às stouts e seus aromas que remetem, dentre outros, a café. Na rauchbier, o esquema é o contato da fumaça de madeira queimada com o malte.

Chega de teoria, vamos à cerveja. A Caldo de Bituca é produzida pela cervejaria curitibana Ogre Bier, que tem uma proposta bastante objetiva: “cerveja sem frescura”. A ideia dos caras é estimular o livre arbítrio de nós, bebedores, para que possamos escolher qual, onde e como iremos tomar nossa bera, sem compromissos. Eu particularmente sou muito favorável a essa filosofia, por isso curto bastante a linha de pensamento da Ogre. Fica fácil entender agora que Caldo de Bituca é um nome que combina demais tanto com a cerveja, quanto com a própria cervejaria que a produz. E quando se olha para o rótulo, então…

caldo_bituca_rotuloNo copo, a cerveja gera uma espuma bastante rica e cremosa, carbonatação esta bem notável na boca. A coloração da Caldo de Bituca é um meio termo entre o marrom e o âmbar, quase uma cor de caramelo e ela é bem límpida. A coisa começa a ficar mais interessante com o aroma; sim, o defumado está lá, mas não de um modo dominante. Confesso que já tomei outras rauchbiers com aromas mais intensos e a Caldo de Bituca é mais comportada nesse sentido. Mas isso está longe de ser um defeito, muito pelo contrário. A proposta da cerveja, de acordo com os ogros criadores, é justamente apresentar uma bebida característica do estilo, mas com drinkability alta e que possibilita a percepção de outros elementos. Na mosca! Uma doçura de caramelo divide a cena com o defumado, criando um belo aroma.

Caldo_deBituca-01

Fonte: rocknhops.com.br

Na boca, a cerveja mostra certa complexidade, o que pede um número mínimo de goles para conseguir identificar os diferentes sabores (pelo menos para os menos treinados, como o autor deste post). De cara, o defumado, agora mais notável. Na sequência, a doçura sugerida pelo aroma se revela para, então, dar lugar a um amargor, sutil, mas presente (18 IBU). Quem diria, numa cerveja que tem o malte como protagonista, até o lúpulo ganha espaço. Mais um ponto para a Caldo de Bituca. Depois de engolir, o que resta é mais defumado, e que persiste por um bom tempo. E toda essa composição disfarça bem o álcool, que não é alto, mas também não é desprezível (6,5%).

A última característica dessa cerveja que eu gostaria de comentar é que ela é comercializada em garrafas de 600 ml. Ao tomar sozinho (como eu fiz para escrever esse post), é natural que a temperatura da cerveja vá aumentando. Chegando no final da garrafa, o aroma de defumado fica bastante evidente, talvez em consequência da maior temperatura.

Pessoal, trata-se de uma bela cerveja. Está interessado em conhecer o estilo rauchbier? Comece pela Caldo de Bituca.

1 Aqui o “mais tradicionais” foi escrito propositalmente, porque nem toda cerveja é feita com água, malte, lúpulo e levedura. Ficou curioso? Dá uma olhada no movimento das cervejas impuras, capitaneado pelos cariocas da 2cabeças e apoiado pelos curitibanos da Morada. O primeiro lançamento foi a Bizarro, a Anti-Cerveja, mas isso é papo para outro post

 

Trilha sonora: Swallow the Sun – “Songs from the North”


GSTB-DanielDetzel100x100 Daniel Detzel

Engenheiro civil de formação, recém doutor em engenharia de recursos hídricos. Metaleiro desde sempre, possui gosto por cerveja lupulada e forte, assim como a música, embora não recuse as menos extremas (assim como a música…). Aprendeu há algum tempo a tomar menos, porém melhor e, embora tenha participado de algumas brassagens, ainda prefere somente a degustação. Planos futuros envolvem aprender alemão e visitar algum país nórdico, não necessariamente nessa mesma ordem. No facebook .

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