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Sobre amor, flores e cervejas amargas

TSSSS! Fala pessoal!

E a primavera chegou. Tipicamente associada ao reflorescimento da flora, é a estação preferida dos poetas. Provavelmente seus caminhos pela cidade devem estar povoados pelas novas flores. E se o marmanjão aí deste lado está achando esse papo muito nhénhénhé, fique sabendo que, se você gosta de cerveja, deve respeitar muito uma flor em particular. Sim povo meu, o lúpulo é uma flor!

Não, está não é uma flor de lúpulo.

Não, está não é uma flor de lúpulo.

A flor de Humulus lupulus (nome científico deste verdinho querido) é utilizada como condimento e conservante na maioria das cervejas. É ele que empresta seus aromas, sabores e amargor ao líquido que tanto gostamos. Casamento perfeito: é o melhor par para o malte, docinho, equilibrando-o (e temos definitivamente um post romântico).

O am(arg)or em forma de flor

O am(arg)or em forma de flor

Se o uso é necessário na maioria das cervejas (sim, existem algumas receitas sem lúpulo, mas muito mais experimentais), o abuso da flor também é definidor de alguns dos estilos mais interessantes. Afinal, geralmente lúpulo nunca é demais – mantra de muita gente que adentra no mundo das “cervejas especiais”. Pra essa turma, IPA é muito mais que uma sigla com cara de serviço do governo: IPA é luz, raio, estrela e luar.

Homenagem a um grande romântico.

Homenagem a um grande romântico.


Na contra mão da maioria esmagadora das cervejas de massa, que buscam acima de tudo suavidade para um maior volume de goles, as representantes do estilo India Pale Ale (IPA) trazem generosas cargas de nossa flor, criando cervejas bem mais amargas e aromáticas. Se você nunca bebeu nada no estilo, talvez o primeiro gole assuste, mas vai por mim: a paixão será certa.

A história das IPAs, como os grandes épicos românticos, é carregada de diversas lendas e verdades. A versão mais aceita diz que, fabricada especialmente para o exército britânico residente na Índia colonial, a cerveja era produzida com bastante lúpulo, o que ajudaria na conservação da bebida na grande distância enfrentada entre os conquistadores e colônia. Fabricar cerveja na Índia, na época, era impraticável: não havia refrigeração e a terra era quente pra dedéu.

Famosos bebedores de cerveja, os colonos ingleses se decepcionavam em receber sua carga de Pale Ale estragada durante a viagem. A solução então era aumentar um pouco do álcool (papel do malte) e carregar o amargor (lúpulo). Nascia ali um estilo – odiado por alguns, amado por tantos outros.

Engraçado é que, passado mais um tempo, foi outra colônia inglesa que revolucionou o estilo. As versões americanas utilizam lúpulos nativos e geralmente são um pouco mais amargas que as representantes originais. As flores americanas de lúpulo estão entre algumas das mais utilizadas nas cervejas em todo mundo, muito pelas características cítricas e florais que geralmente você encontra também na maioria das IPAs (e também APAs, American Pale Ales) brasileiras.

E é aqui que surge nossa garrafa do mês. A “Holy Cow 2” é a segunda versão da cerveja produzida colaborativamente pela Seasons – brasileira de Porto Alegre – e a Green Flash, americana de San Diego.

É uma IPA com muito lúpulo, bem ao jeito americano de reproduzir o estilo. Quatro variedades são utilizadas, cada uma emprestando sua característica à cerveja, em momentos distintos. É aqui que entra a brincadeira mais legal do nosso personagem de hoje: existem diversos tipos, com diferentes propriedades, mesmo se tratando da mesma flor. Tem os de amargor, os de sabor, os aromáticos. E são essas diferenças exploradas nesta cerveja, como os próprios criadores definem:

 

Nesta segunda edição, usamos um mix de 4 variedades de lúpulos durante o processo de fabricação: Columbus, que contribui com um cítrico intenso; Chinook, um dos lúpulos mais apimentados do universo; e o australiano Galaxy, contribuindo com um toque de frutas tropicais. No dry hopping, novamente vem o Galaxy para trazer à tona a intensidade de frutas tropicais, mas desta vez acompanhado dos cítricos e aromáticos Cascade e Citra e de uma carga extra de Amarillo para fechar com chave de lúpulo. Um monte de lúpulo.

 

No copo, como vocês devem imaginar, é uma cerveja muito perfumada. Aliás, é legal ver quanto o estilo também agrada as mulheres, apesar de que o amargor poderia denunciar o contrário. As IPAs são cervejas cheirosas.

No gole, claro, vem o amargão (olha quanto lúpulo na receita!). Mas também tem abacaxi, maracujá e outras frutas. É uma cerveja linda, dourada, intensa e refrescante. Cabe aqui mais um comentário: essa é uma cerveja não-pasteurizada, portanto você não irá encontrá-la nas prateleiras da loja, mas sim nas geladeiras. É uma bebida produzida com muito cuidado, para que seja a mais fresca possível, evidenciando o caráter único de cada lúpulo presente.

Se encontrar uma garrafa, se entregue. Se você é um apaixonado por lúpulo, cairá de amores por essa maravilha “inglesa-indiana-americana-brasileira”.

Muito amor e SAÚDE!

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2 comments on “Sobre amor, flores e cervejas amargas

  1. God Save a lupulina, resina da fina flor do lúpulo de onde se originam suas características maravilhosas.
    Curti o artigo. Parabéns! Acrescento mais uma curiosidade interessante a respeito do lúpulo, este ingrediente mágico da cerveja: é a flor femenina da planta a parte utilizada na fabricação da cerveja. Talvez isto explique porque muitos machos são tarados por cervejas altamente lupuladas.
    Cheers!

  2. God Save a lupulina, resina da fina flor do lúpulo, de onde se originam suas características maravilhosas.
    Curti o artigo. Parabéns! Acrescento mais uma curiosidade interessante a respeito do lúpulo, este ingrediente mágico da cerveja: é a flor femenina da planta a parte utilizada na fabricação da cerveja. Talvez isto explique porque muitos machos são tarados por cervejas altamente lupuladas.
    Cheers!

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